De volta ao começo: a iniciação científica que me formou

Nas duas últimas noites acompanhei o Seminário de Pesquisa e Extensão da Uneal (https://doity.com.br/vii-seminario-de-ensino-pesquisa-e-extensao–sepex–uneal–2026) como avaliadora. Sentei diante de trabalhos que me deram alegria e me devolveram algo que eu não esperava reencontrar: a saudade. Enquanto os estudantes apresentavam, com aquele brilho nervoso no olhar, a mistura de medo de ser avaliado e orgulho tímido de mostrar o que construíram, eu me vi do outro lado da mesa. Não a avaliadora que sou hoje, mas a menina que fui, com a mesma respiração curta antes de subir, com o mesmo coração acelerado. É desse reencontro que quero escrever. Um pouco por afeto e um pouco por utilidade, porque sei que há estudantes lendo, e talvez algo aqui sirva a quem está começando.

Sobre não aceitar um “não”

Cheguei à universidade com uma vontade quase física de viver todas as oportunidades que ela oferecia. A curiosidade sempre foi meu motor, e foi ela que me levou a procurar a iniciação científica ainda muito cedo. Foi assim que encontrei a professora Erinalva Medeiros Ferreira.

Nossa primeira conversa aconteceu na sala dela, quando eu estava apenas no segundo período. Ela me olhou com franqueza e questionou minha imaturidade para entrar na pesquisa, afinal, eu mal havia terminado o primeiro período.

Eu não me dei por satisfeita. Se não podia entrar pela porta da frente, entraria pela lateral. Comecei um estágio na secretaria do curso, só para ficar um pouco mais perto daquele mundo que eu queria habitar. No semestre seguinte me tornei sua monitora, e foi ali, aos poucos, que comecei a aprender o que era pesquisa e o que era escrita acadêmica.

Erinalva sempre foi firme. Muitos tinham medo dela. Mas eu diria que a firmeza era só carapaça. Bastava aproximar-se para usufruir de toda a sua generosidade acadêmica. Com o tempo entendi que a firmeza dela também era uma forma de me levar a sério, de acreditar que eu aguentaria o peso do rigor. E aguentei.

O interior, a capital e a boa inquietação

Fui bolsista de iniciação científica do CNPq entre 2008 e 2010, em dois ciclos consecutivos. A primeira pesquisa se chamava “Maceió: Cidade Sustentável? O problema do transporte e circulação urbana e suas implicações ambientais”. A segunda, “Migrantes ambientais em Alagoas: a problemática da anomia jurídica sob a ótica do direito à sustentabilidade ambiental”.

O direito ambiental era a paixão da professora Erinalva, e os temas ambientais nasceram de uma interação muito fluida entre nós. Mas havia também uma inquietação minha, bem particular. Eu já pensava em temas de impacto social e local. Achava que, antes de mergulhar em grandes estruturas e categorias teóricas, era preciso olhar para o chão e perguntar se a norma estava sendo efetivamente aplicada. Era a boa inquietação entre o dever-ser e o ser no direito, a distância entre o que a lei promete e o que a vida cumpre. Olhando de hoje, reconheço nessa dúvida a semente de tudo o que vim a pesquisar depois. A pesquisadora que se debruça sobre a consensualidade administrativa já estava inteira naquela bolsista do segundo período, desconfiada da norma que fica no papel.

Havia também a menina recém-chegada do interior. Eu vinha de uma cidade de sete mil habitantes, onde crianças brincavam na rua, não havia horário perigoso para circular livremente, a cidade sequer tinha transporte público e todos se conheciam. De repente estava na capital, nos longos percursos de ônibus, diante dos problemas de um espaço novo e estranho. Minha primeira pesquisa nasceu exatamente desse atrito entre o meu corpo recém-chegado e a cidade grande. Pesquisar era, no fundo, um jeito de compreender e habitar o lugar que passava a ser meu.

A segunda pesquisa chegou quase por acaso, e esse acaso me ensinou muito. Ao trabalhar com mobilidade na primeira investigação, percebi que, como descritor de busca, o termo me devolvia constantemente resultados sobre migração. Em vez de ignorar aquilo, segui o fio. Meu interesse foi despertado, e a professora me ajudou a refinar a abordagem. Aprendi ali que o tema também nos encontra, que a pesquisa real raramente é aquela linha reta e limpa que os manuais descrevem.

Sobre as apresentações, confesso que havia sempre um frio na barriga, um certo medo de ser avaliada. Mas junto dele vinha uma ansiedade positiva, a alegria de descobrir que meu trabalho havia sido lido, que alguém dedicara tempo a ele, mesmo sendo eu só uma estudante.

De orientada a orientadora

Comecei a orientar, como professora, em 2013, no Cesmac, e de lá para cá foram muitos estudantes. Curiosamente, ao me sentar do outro lado, percebi com clareza o que havia recebido e o que era meu.

Da professora Erinalva herdei duas coisas que carrego como divisa: a curiosidade e a seriedade do trabalho.

Com o tempo, desenvolvi um jeito próprio. Gosto de dar espaço aos alunos para desenvolverem suas próprias curiosidades.

E gosto, sobretudo, de ensinar metodologia. O “como fazer” que tão poucos têm a generosidade de sentar e explicar em detalhe a um iniciante, etapa por etapa, processo por processo. Muita gente cobra o resultado sem nunca ter mostrado o caminho, e o estudante fica adivinhando as regras de um jogo que ninguém explicou. Escolhi fazer diferente, porque foi diferente que fizeram comigo.

O que aprendo como avaliadora

Voltemos, então, às duas noites que me trouxeram até aqui. O que mais me tocou no seminário da Uneal foi justamente esse brilho nervoso dos estudantes e a preocupação com temas locais, com aquilo que dói e importa perto de casa. É a mesma inquietação que me moveu.

E se me perguntam, como avaliadora, o que separa um trabalho mediano de um bom trabalho, respondo com convicção: a honestidade intelectual para reconhecer as limitações da própria pesquisa e a coerência metodológica. Um bom trabalho não é aquele que promete o mundo, mas aquele que sabe exatamente até onde vai e por que caminho chegou lá.

Para quem está começando

Se você é estudante e chegou até aqui, deixo três conselhos práticos que fui aprendendo e que ainda me servem.

O primeiro é manter um arquivo de fichamentos, no espírito do método Zettelkasten. Registre suas leituras, conecte ideias, construa aos poucos um repositório de pensamento seu. Você ficará grato por isso quando precisar escrever.

O segundo é escrever no cotidiano. Não espere a inspiração nem o momento perfeito. A escrita acadêmica é uma prática, e prática se constrói dia após dia, com constância, mesmo quando o texto sai torto.

O terceiro é se dispor, sempre que possível, a se expor academicamente. Apresente, submeta, mostre o que você fez para receber feedback e conselho. Sei que dá frio na barriga. Sentia isso também, e ainda sinto. Mas é assim que crescemos, e há uma alegria genuína em descobrir que o nosso trabalho foi lido.

Olhando para trás, o que eu gostaria de ter sabido, quando era a estudante na sala da professora Erinalva, é justamente isso: que o frio na barriga não passa, e não precisa passar. Ele é sinal de que aquilo importa. O que muda é o que fazemos com ele.

A iniciação científica me formou como pesquisadora e como pessoa. Recebi de Erinalva a curiosidade e o rigor, transformei aquilo em um jeito meu de orientar, e hoje devolvo, do lugar de avaliadora, o mesmo olhar atento que um dia me foi oferecido. É um ciclo, e talvez seja essa a beleza mais secreta da vida acadêmica. O que se recebe, cedo ou tarde, se transmite adiante.

Post scriptum.

Este texto começou com a professora Erinalva porque foi com ela que tudo começou, mas eu não seria quem sou sem os demais orientadores que me acompanharam ao longo do caminho. A cada um deles devo uma parte do que aprendi. Registro aqui minha gratidão especial à professora Alessandra Marchioni, que me orientou no Mestrado, e à professora Isabel Celeste, que me orientou no Doutorado. De cada mestra levei comigo um olhar, uma exigência, uma generosidade.

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