Sobre a nossa finitude e a organização nossa de cada dia

Imagem de annazuc por Pixabay

A consciência da finitude das nossas vidas é algo tão assustador que a gente costuma ignorar o fato até que mortes acontecem muito próximas da gente.

Até mesmo eu, que sou uma pessoa que gosta de planejar e pensar no futuro, sempre fui muito avessa à persperctiva do fim daqueles que eu amo. Continuo sendo. É coisa pra trabalhar na terapia.

Pensar na minha finitude não era algo muito problemático, pra ser sincera, pois não pensava com muita seriedade. A juventude acha sempre que a velhice e a morte são coisas muito distantes, mas, eis, que o tempo passa…

E, faz uns 3 anos que meu lado planejador e reflexivo vem pensando como seria útil e importante fazer meu testamento. Noutra época isso soaria para mim como algo mórbido ou exclusivo para quem tem elevado patrimônio (definitivamente não é o caso desta professorinha aqui).

Mas, faz uns anos que venho pensando nisso, estudo o assunto, encontro muitos motivos pragmáticos e tributários para fazer, sei que é o melhor a fazer, mas ainda não fiz.

Em 2020 o medo da Covid-19 me deu um insight pragmático a mais. Eu percebi que se eu for internada, intubada, ficar incomunicável, meu marido vai ter várias dores de cabeça práticas, pois eu sou a centralizadora das tarefas de gestão entre nós. Sou eu que administro toda a nossa vida burocrática e prática, desde o controle de alimentos na despensa até o pagamento das contas do mês e dos impostos anuais.

Então eu organizei um pequeno guia para acesso aos nossos dados e documentos que sejam importantes ou necessários numa eventual ausência minha. Deixei os documentos digitalizados, organizados, compartilhamos nossos sistemas.

A sensação que tive ao terminar foi realmente boa.

Pela primeira não houve um sentido negativo pra mim pensar nesta minha ausência.

Meu amor por ele me fez sentir que não quero que ele tenha que se preocupar com estas coisas, além de todos os problemas que envolvem uma internação, uma doença grave.

Senti que deixar as coisas organizadas, facilitadas, acessíveis, para aqueles que amamos é um ato de amor, de cuidado. Uma demonstração de que nos preocupamos com estas pessoas caso não possamos estar aqui para lhes dar a mão.

O louco disso é que a vida é incerta por natureza e podemos morrer a qualquer momento. Isso não começou agora com a Covid-19. Doenças, acidentes e mortes súbitas acontecem o tempo todo, com todo tipo de gente.

E eu, que sou uma pessoa naturalmente organizada e preocupada com minha família, nunca tinha pensado com tanta seriedade em cuidar destas questões mais práticas de uma vida sem mim, antes da pandemia.

Quero dizer que minha organização sempre foi algo para mim, para que eu pudesse conquistar meus objetivos, que eu conseguisse fazer caber na agenda as coisas que eu queria fazer.

Definitivamente, hoje já não é mais apenas isso. Eu me organizo, enquanto penso no momento em que não mais estarei aqui, em que lembro que meu tempo aqui é finito, para melhor usar meu tempo e meus recursos não só para mim, mas com os meus amores, em prol deles.

Não vou dizer que isso é uma coisa boa da pandemia. Longe disso.

Mas posso dizer que fazer isso, pensando no bem-estar dos que amo, aqueceu meu coração e deu um novo sentido aos meus atos de organização. Quase um alento em meio a tantas notícias difíceis.

Se isto não for te entristecer neste momento tão duro, recomendo. Organize seus documentos, seu patrimônio, suas informações relevantes e as deixe acessíveis para quem vai ter que segurar a barra num momento em que você não possa mais fazer, seja temporária ou definitivamente.

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