Diário de uma professora universitária 1 – Apresentação + o que é mesmo uma aula

Acervo pessoal. Sala de Direito Administrativo em 20 de maio de 2021.

Como somos muitas coisas na vida, penso que pode ser útil compartilhar um pouco do que aprendi e aprendo constantemente com minhas atribuições de professora universitária. Isto significa que teremos aqui além do diário da doutoranda, também o diário da professora.

No primeiro deles, queria falar sobre o que é mesmo uma aula, justamente numa semana em que, numa das instituições em que leciono, “não tivemos aula” por três dias, durante os quais ocorreu um Congresso Internacional (registro acima). Eu não palestrei, mas participei como debatedora e avaliadora da apresentados.

No curso de direito ainda é muito mais comum que as aulas sejam expositivas, ou expositivo-dialogadas. Metodologias ativas, embora muito incentivadas nas instituições em que leciono, não são a regra geral ou a forma mais rotineira de ministrar aulas nos cursos jurídicos.

Pois bem. Isso cria nos alunos uma impressão, bem equivocada, de que uma aula é um momento em que um professor se coloca na sua frente e despeja conteúdos previstos na ementa da disciplina, às vezes com auxílio de slides, vídeos rabiscos numa lousa.

Isso faz com que, sempre que temos um evento que sai desse roteiro, como um Congresso, uma aula invertida, uma gamificação, os alunos se mostrem surpresos e até reclamem que “não estão tendo aulas”.

O engraçado é que as reclamações acerca de métodos enfadonhos de ensino e aulas excessivamente conteudísticas são proferidas pelos mesmos alunos que reclamam quando a dinâmica de ensino-aprendizagem muda.

Mas o que é uma aula?

Gosto da definição do Gilles Deleuze, segundo quem uma aula é “uma espécie de matéria em movimento”. Ele faz uma bela analogia com um ato musical. Fala que uma aula não é só inteligência, mas é emoção também, pois isto permite o afloramento de vários centros de interesse que vão passando entre os participantes da aula e formando um tecido esplêndido, uma textura.

Se é assim, e eu acredito que é assim, uma encontro que contenha tão somente um único sujeito, cem por cento do tempo monopolizando a palavra, e fazendo isso sem a capacidade de despertar interesses entre os participantes, não é uma aula. Não é verdadeiramente um ato pedagógico, pois não é capaz de digirir e estimular o aprendizado.

Daí que uma aula pode ser conduzida sim, de um modo mais tradional, com exposição do professor e diálogos com os alunos.

Quando se promove um seminário e se coloca como expositores principais os alunos, também temos aula.

Quando estudiosos de renome internacional se reúnem para falar das implicações de seus objetos de pesquisa temos aula.

Quando se parte de um problema e se dedica um tempo para que os alunos descubram por si mesmos as soluções temos aula.

Há tantas formas de fazer esta mediação que é um verdadeiro desperdício das nossas capacidades mentais e do nosso tempo chamar de aula um monólogo de natureza manualesca.

Se você quer alguém pra ler pra você um livro, não precisa de aula, nem de interferência humana. Hoje há ferramentas até no word que leem textos… Nem por isso dá pra chamar isto de aula.

É certo que é muito mais fácil ouvir sem ter que pensar. Mas, não é isso que se pode esperar de uma aula de nível superior.

É por isso que elaborar uma aula dá um “trabalhão”.

Nos próximos diários eu conto como eu faço.

Sinta-se à vontade pra apontar aqui como você faz, ou que você considera que seja uma aula.

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