Semana passada eu trouxe aqui uma perspectiva do que seja uma aula.

Mas como se prepara uma aula quando você é professor universitário?
Vou falar aqui do meu processo de preparação de aulas para a graduação, pois tudo depende do contexto. Preparar uma aula para a pós-graduação, para um curso de curta duração, para um preparatório da OAB são coisas diferentes e obedecem a critérios diversos.
A minha preparação de aulas começa muito antes delas serem ministradas, antes do início de cada semestre letivo.
Neste período em que a maioria dos profissionais está aproveitando loucamente o fim do recesso ou o fim das férias, eu, como professora, estou começando minha preparação das aulas.
Todo início de semestre eu verifico se já ministrei a disciplina anteriormente, se já tenho materiais e arquivos associados à disciplina no meu computador e nos meus repositórios de arquivos, bem como os livros básicos que tenho disponível aqui em casa, em meio físico ou eletrônico.
Separo estes itens numa única pasta e, então, dou uma conferida na Ementa da disciplina, que expõe o que a instituição de ensino listou como conteúdo programático e referências bibliográficas básicas e complementares.
Isto é importante para duas coisas: 1. garantir que a Ementa não tenha sido alterada, e, por consequência, meu conteúdo programático, minha carga horária disponível. 2. usar nas minhas aulas referências que estejam disponíveis na instituição de ensino para os alunos (não adianta preparar um curso com referências inacessíveis aos alunos).

Com estas informações e documentos ao meu dispor eu abro o calendário do semestre e já listo as datas máximas que terei para fechar as etapas avaliativas. Há instituições que possuem duas provas por semestre, enquanto outras exigem pelo menos três provas por semestre. E cada instituição ainda tem regras sobre o processo avaliativo, prazo para lançar as notas nos portais acadêmicos, fazer retificações, dar feedback para os alunos, etc e tal. Em algumas instituições este prazo é mais ou menos flexível.
Isto é muito importante pra mim, pois assim sei quantas horas, aproxidamente terei com os alunos e posso fazer uma distribuição de conteúdos adequada aos eventos do semestre e datas de avaliação.
Mais que isso, posso me programar para deixar avaliações prontas com antecedência e, o mais importante pra mim, não passar o final de semana que antecede meu prazo para publicar notas presa na cadeira corrigindo avaliações até não aguentar mais.
Com tudo isto em ordem, e baseada na minha experiência anterior com outras turmas, vejo se é interessante alterar a ordem dos conteúdos ou dar mais tempo e espaço para algum assunto.
Eu já sei, com base na minha experiência, por exemplo, que preciso de pelo menos dois encontros de uma hora e quarenta minutos para ministrar o tema de Princípios da Administração Pública. Sei que posso precisar de um terceiro encontro, se o ritmo da turma for um pouco mais lento. A depender das características da turma, pode ser mais produtivo solicitar uma análise de caso a ser feita em casa pelos alunos do que trazer o tema para esta terceira aula, então, incluo estas opções no meu planejamento.
Outra coisa que muda completamente meu planejamento é o ambiente e os recursos que terei disponível. Quando estava lecionando somente no ambiente presencial eu tinha duas realidades distintas.
Na universidade pública lecionava em salas abafadas, sem ventiladores, ar-condicionado, sem água nos bebedouros, sem data-show, computador e acesso à internet precário. A depender da sala, nem mesmo o quadro estava disponível (em algumas salas até tinha, mas já estava tão desgastado que não se podia escrever nele).
Na outra instituição, particular, eu tinha estas ferramentas todas, mas precisava agendá-las. para não perder tempo.
Agora, com a pandemia, oscilei entre um modelo remoto de ensino e um modelo híbrido.
Conto tudo isso para que percebam que estes diferentes cenários exigem de mim planejamentos específicos, de modo que nunca se tem exatamente a mesma aula, se os cenários e recursos forem diferentes.
Uma vez que eu esteja ciente de todas estas condições passo a planejar cada um dos encontros.

Gosto de abrir um documento no word ou uma página no meu caderno de notas e redijo o seguinte esqueleto, as vezes de modo linear e outras num mapa mental:
Tema da aula (Assunto listado no conteúdo programático da disciplina);
Tópicos a trabalhar (Lista de tópicos fundamentais sobre o tema. São as partes do conteúdo que precisam ser abordadas. Uso minhas notas anteriores e consulto cursos e manuais da matéria que vou ministrar. Consulto também a legislação e a jurisprudência associada ao tema, especialmente para fins de elaboração. Procuro lembrar de dúvidas e questões que os alunos tiveram em encontros anteriores e incluir na minha lista de tópicos de aula);
Objetivo da aula (o que eu espero que os alunos saibam, entendam ou sejam capazes de realizar como resultado do aprendizado da aula);
Avaliação/exercícios sobre o conteúdo da aula (lista de exercícios em papel, nos slides, no aplicativo socrative, casos concretos, tópicos para serem colocados em debate, etc. Confiro meu acervo ou elaboro neste momento de construção da aula);
Texto de base/referências (capítulo de livro, artigo científico, resumo, apostila. Consulto meus textos, meus livros, pesquiso novas fontes em repositórios como Google Acadêmico, Scielo, Vital Source, etc);
Outros materiais a serem usados (textos, peças, vídeos, imagens, slides, mapa conceitual, músicas, etc. Uso o youtube, as redes sociais e meu acervo pessoal de materiais);
Recursos técnicos e físicos (computador, data show, quadro branco, programas de computador, conforme a aula seja remota, híbreida, presencial e conforme o local em que será ministrada e o que estará disponível pra mim).
Preparar uma aula é uma tarefa criativa.
É claro que eu não uso todos os recursos possíveis em todas as aulas, pois tenho tempo, energia e espaço limitados para preparar e para executar o planejado.
E nem sempre as ideias vem nesta ordem. Isto é mais uma checklist para eu observar quando não estou nos dias mais inpirados e quando estou em períodos mais ocupados, pra garantir que não vou esquecer do que é importante. Também é uma forma de garantir que a inspiração me encontre trabalhando quando resolver aparecer. Quando você tem aulas em 5 dos 5 dias úteis da semana é impossível esperar a inspiração chegar para preparar uma aula.
Mas várias partes das minhas aulas vem de inspiração no dia-a-dia e a aula vai se construindo conforme eu vou amadurecendo ideias.
Muitas vezes estou lendo um artigo científico, lendo uma notícia de jornal, vendo uma cena de um filme, esperando distraidamente uma consulta médica ou a fila no supermercado, conversando com um amigo, acompanhando um caso jurídico em debate no STF, elaborando um parecer para um processo… e me deparo com uma situação ou um caso que funcionariam perfeitamente para ilustrar um conteúdo ou movimentar a aprendizagem dos alunos, então já arquivo para preparar minhas aulas futuras.
Isto é engraçado porque, como professora, minha cabeça nunca para de pensar em como minhas experiências e as informações a que tenho acesso podem fazer sentido em termos pedagógicos para os meus alunos. Neste sentido é um trabalho que nunca acaba. Tem sempre uma coisinha trabalhando no cérebro, nem que seja em segundo plano.

É sempre um trabalho criativo, pois nunca se trata de simplesmente expor um conteúdo, mas se trata de antecipar questionamentos, instigar dúvidas e interesse e, principalmente, alcançar um objetivo. E há muitas formas de fazer isso.
E isto, frequentemente, leva bem mais que 1h40min que geralmente tenho a cada encontro. Por isso que planejar o semestre inteiro bem no começo é importante, pois eu me antecipo a estas necessidades e planejo aulas que vão durar desde a apresentação do tema até a avaliação do atingimento do meu objetivo entre 3 e 6 horas, ou seja, vários encontros do meu cronograma e tudo precisa se encaixar e fazer sentido.
Não se trata de lecionar tudo de cada assunto (isso seria impossível), mas de saber selecionar o que fará diferença no processo de aprendizagem naquele contexto.
Às vezes são projetos maiores, com ciclos de seminários, simulação de processos e de audiências, participação em eventos, mas eu preciso sempre saber qual o objetivo da tarefa feita por mim ou pelos alunos a cada etapa.
Dá um trabalhão, mas é um processo muito divertido de realizar e sempre surpreendente, pois, nunca é o mesmo público ou as mesmas circunstâncias, e nós sempre podemos errar de formas novas.
Adoraria saber como outras pessoas preparam suas aulas. Fiquem à vontade para compartilhar comigo.